terça-feira, junho 03, 2008

Anonimato

- À quem escreves Eufredo?
- És de tua conta D. Benedita?
- És da conta de todos, queira saber!
- Pois bem, escrevo a alguém.
- Pois quem, hein?
- Alguém és teu nome. Alguém da Cunha Machado.
- Oras, não me venha com peripécias, sei muito bem à quem escreves.
- Então porque perguntas?
- Quero a confirmação.
- Mas se já tens tanta certeza.
- A confirmação.
- Então não há certeza alguma.
- Dê-me-a, ou me tiras do sério.
- Estás séria? Pois parece-me muito abatida. A senhora têm ido ao médico, não quero me intrometer, mas apenas acho que...
- Chega! Cala-te infeliz. Sei que escreves pra quêla bruaca da Rita Maria. Desse jeito comprometerá a todos nós. Dê-me a carta. Já.
- Como? Eu? Oras, e és de tua conta futriqueira. O que pretendes tu?
- Entregar-te ao Estado.
- A ele já pertenço.
- Não se faça de besta. És um tolo.
- Que seja.
- És louco? Nossas vidas estão em risco, e tu, comunica-se com aqueles...
- Loucura é não fazer nada diante de tanta injustiça, e saiba que, com ou sem isso, nossas vidas permanecem em risco, viver já é perigoso o bastante mesmo entre quatro paredes, e não há muros, paredes ou pontes que nos escondam. Somos livres D. Benedita, livres. Do próprio Deus o livre arbítrio dizemos ter. E que liberdade é essa, imposta e limitada, "escolha" deixou de existir há muito, somos obrigados a engolir sem vomitar, a sociedade és certa e errado quem vai contra ela, e todos se esquecem que o peixe também é responsável pelo curso do rio. Bem, "sejamos todos bons cidadãos". Oras, dê-me um motivo para não escrever, e eu o respeitarei se a mim, e a meus ideais, me convier.
- (...)

quarta-feira, maio 28, 2008

Ausência

Queridos leitores,

Não tenho tido tempo de visita-los em seus cantinhos especiais, e tão pouco para desenhar no meu. Mas asseguro, voltarei. As letras me fazem cócegas nas pontas dos dedos, querem sair, nascer e formar-se palavra escrita, dita, contada.
Bem, esse borbulho que aqui se encontra, em mim se encontra, e depois espero que aqui descanse.

Obrigada pela visita.
Ótima semana!

Amanda.

quinta-feira, maio 08, 2008

Sabe-não



A gente sabe...
A gente não esquece... Porque a gente vive, a gente sente, e gente erra, a gente repete e às vezes não muda.
Damos voltas na volta à "Lua", damos vida em qualquer estação que se faça, somos semente, broto descalço, alguém para amar.
A gente erra, a gente emudece.
Depende do erro, do que é um "erro", depende da falha, da noite e da escada, depende de tantas coisas, porque só depende da gente...
A gente sabe-não...
Sabe nem se depende. Querer é costume, hábito inseguro.
Insegurança é segura, segura tanto que prega os pés que não dá pra andar.
A gente pode, quando a gente quer a gente aprende. Mas tem coisas que não dá pra ser 'só'.
Tem coisa que 'só' a gente compreende, junto, a gente conta outra história.

sexta-feira, abril 11, 2008

Sou tua, Vida.


Vida, me leva pra junto de ti, me bota no colo, acaricia minha face, me enche de beijos. Me afastei de mim, fugi pra longe, bem longe do que eu entendia por "ser". Sou assim, sou não sei como, nem quando, mas sei que sou.
Ah Vida, põe-me nos teus braços e me conta tua história, escutarei tudo o que disseres, olharei pra ti com os olhos de uma criança, ficarei quieta e atenta, mas por favor... Deixa-me te ouvir.
Vida, me entenda, não sei como cheguei aqui, mas tu me trouxeste, tu me fez assim, não culpo-te, não! Eu te amo por me ensinar tudo o que sei, eu te amo por me mostrar tudo o que eu ainda não vi, eu te amo por tantas coisas e por tão pouco.
Ai Vida, dói-me as lágrimas por te amar. Choro a tua nascença, a tua virtude, dói-me a ausência de mim em ti, mas eu Preciso.
Abraça-me, aperta-me em teu peito como tua mulher, fala-me no ouvido tudo o que quiseres dizer, deixa-me viver-te em mim, sou tua, Vida, sou tua sempre.
Cada instante me é precioso, não jogarei ao tempo o tempo que tenho, tu és feita de escolhas, pequenos detalhes que fazem a diferença. E eu escolhi. Eu escolhi viver-te.

terça-feira, março 25, 2008

Idades, Idéias, Ideais...

Tudo na vida tem um "porquê", sabemos que sim, mas não sabemos o quê. Destino? Casualidade? Bobagens? Tudo pode ser e não ser, estar e sumir, tudo é mutável e se desfaz. Tudo é tão relativo e tão... Não sei. Constantemente nossa mente se enche de dúvidas, faz perguntas absurdas, mas tudo não é possível? O que não pode ser? Para 'ser', o primeiro passo é querer, o segundo é tentar, o terceiro... Bom, acho que cada um escreve os seus passos e deixa suas migalhas de pão da maneira que lhe é melhor. As migalhas são roubadas pelos pássaros, senhores do tempo, e não há volta. A gente anda em circulo, vai e volta, fica e foge, a gente tem medo, se esconde do escuro, abaixa na queda, a gente faz tudo pra gente e nos esquecemos da gente. Somos todos adultos aprendendo o ABC - Avistar, Buscar, Consolidar. Somos todos crianças vendo além do que é possível ver. E não sabemos por quê. Destino? Casualidade? Bobagens... A idade, as idéias, os ideais, são da gente, nos pertencem, e são só massinhas de modelar, as minhas são bem coloridas.

quinta-feira, março 13, 2008

Mulher

Mulher, pedaço de carne desejo pungente, par de pernas de seios e olhos. Mulher, da boca tua sai veneno, feitiço entregue aos homens pequenos, aos grandes homens, não te entregas, a esses já pertence. Mulher, crua certeza de puta pureza, sente na pele o gosto do gozo, deita-te na cama, soluça tua glória, teus pares de pernas de seios e olhos... Teus olhos, mulher, teus olhos janelas da alma...
Encanta teu jogo suspiro ardente, fascina semente que brotas da alma, teu descanso anda rente a tua essência cuja efêmera trilha compõe-te o verso. Mulher, caminha tua vida de mãos com o vento, teu ventre tua sina, teu corpo, tua grandeza, tua alma me chove, templo de fonte de sede. Bebo-te em mim... Bebo-te os risos, as lágrimas a pureza, roubo teu grito, abro tuas pernas muro passadiço, sou tudo e tanto em ti. Sopra-me do infinito, joga-me de tudo a todos, somos nós... Mulher.

terça-feira, março 04, 2008

Eu

Penso nas coisas simples, no porquê da vida ser assim, nas pessoas que amo, e tenho medo de perdê-las, e medo de não ter medo... Penso que pensando assim é mais difícil, fica tudo de uma cor só, e não vejo outros meios. Mas as possibilidades são infinitas, tal como o infinito da vida, então prefiro parar de pensar, prefiro correr de braços abertos e jogar-me do alto para não sei onde... O que virá amanhã não me importa, mas corro de braços abertos e me jogo nos braços do nada... Se algo mudará não importa... Eu corro e cada vez mais rápido, mais leve, mais não Eu... E canso... E respiro... Eu prefiro nunca parar de correr, porque assim sou livre, vôo junto aos pássaros, repouso nas costas das nuvens, fujo de toda pouca verdade que existe no mundo, da impureza e hostilidade, fico e fujo de mim mesma... Eu amo, eu sonho, eu sinto, eu ouço, eu beijo, eu brigo, eu bato, eu me desculpo, eu caio, eu choro, eu me levanto, eu não desisto, eu vivo.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

"Profitez de I'instant"

É só no que tenho pensado - aproveitar o momento. E dá pra incluir tantas coisas nesse simples pensar... Mas é uma idéia que a gente não pode deixar passar, ficar pensando no que poderia, no que seria, no que viria a acontecer... Ah, assim não vale, assim não é aproveitar. Après tout, a vida passa, corre com o menino dos sonhos dos olhos dourados, de mãos dadas com o tempo, que envelhece nosso I'instant e julga nossa alma, põe medo nas nossas vontades, provoca as nossas vertigens, e no fim das contas, somos nós mesmos... Très bien. Mas chega um momento em que nos perguntamos "Pourquoi? Et pourquoi pass?"
Fazer quelque chose de bonito, ainsi fortement beau... Porque sentir o momento e fazer o momento são coisas totalmente diferentes, mas que caminham de mãos dadas.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O Espelho - Alberto Caeiro


O espelho reflete certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.