
Para ela... nada além dos aplausos suntuosos da platéia ausente. Quando vagarosamente as cortinas se fecham, tudo tem de recomeçar... Fim do espetáculo! Fim do sonho! Até porque...
Cada um é pedaço d'um que foi d'outro. É ser e estar no momento agora. E o Agora... É um encontrar-se de novo.


Não. Foi a última coisa que ela disse, e nada mais precisaria dizer para me fazer acreditar se um dia iria... Ninguém compreende, tão pouco ela, o porquê da repentina mudança de opinião. O porquê de querer, poder e não ter. Mas é entender de verbo passado, isso era ontem, "não" foi a última coisa que disse.Se despediu e foi embora, não me disse se voltaria para ficar ou ao menos me fazer visitas, não me disse o que queria e nem para onde ia. Tentei entender o que ela queria, tentei fazer-lhe o gosto, tratei-a bem, confesso, tudo para arrancar-lhe o motivo. Não. Foi a última coisa que disse.Ainda ontem me lembrei dela. Quando vi os teus olhos no espelho entendi tudo, ela nunca mais voltaria. Senti o gosto azedo da realidade, refluxo de ausência indeterminada, ela, pedaço meu, ausência minha... Para que voltar se nunca foi... Não. Ela me disse, foi a última coisa que ela disse, ainda ontem me lembrei dela... Ainda agora isso é passado... Je me fout du passe...Não. EU disse.
- Xeque.
- Assim não dá, você me distrai com essas histórias.
- Se você se distrai por tão pouco, que posso fazer eu?
- Sem essa. Toma.
- Você comeu minha rainha?
- Ah é? Não me diga.
- Xeque!
- O quê??? Ta brincando.
- Brincadeira nada, é jogo sério.
- Sério é o que vai acontecer com você quando terminarmos.
- Isso é alguma ameaça?
- Você sabe, nem preciso responder. Se eu pudesse...
- Não sei se você se lembra, mas quem vai é você! Pronto, me passa o cavalo.
- O quê??? Ah, mais essa.
- Concentra aí cumpadi, assim que quer ir pro céu? E pode deixar que as ameaças ficam por minha conta.
- Você não me disse nada sobre isso.
- Sobre o quê? Olha, ameaças no bom sentido...
- Sobre ir para o céu.
- Ok. Ganhou céu, perdeu inferno.
- E se eu quiser ficar na Terra?
- Sem chance.
- Eu pago, compro minha vida. Quanto você quer?
- Seu tempo acabou camarada.
- Não, deve ter outro jeito.
- Xeque!
- Ahhhh, você se aproveita!! Ta me sacaneando. Quer me ver no inferno não é mesmo?
- Se você fosse um pouquinho mais esperto nem se preocuparia com isso.
- O que disse?
- Não importa, continue.
- Ok. Então me diga, como é o inferno?
- Você não vai querer saber.
- Oras, se te pergunto...
- Esqueça, de mim não arranca NADA.
- Ok. O que você quer então? Eu lhe pago.
- Olha, por mais que eu esteja precisando - afinal não paguei a conta do hotel nas duas últimas vezes que estive aqui - não posso aceitar.
- E porquê?
- Questão de honra.
- Ah, qualé. Desde quando Morte precisa de honra.
- Desde que você está vivo. Depois que eu te levar é outra história.
- E como pretende fazer isso?
- Esqueça.
- Mas você nem se qu...
- Percebeu que se preocupa muito com como? Quando é mais importante rapaz.
- Agora quer me ensinar a viver?
- Não pode.
- É claro que não posso, não posso mais é suportar essa idéia de...
- Não infeliz, não pode fazer essa jogada, seu Rei está ameaçado.
- Ah claro, como não estaria. Ok, você venceu. Quando?
- Agora.
- O quê?
- Xeque mate!



