quarta-feira, agosto 06, 2008

Lembrança...


Entre os vestígios de sua imagem, ela dança o compasso dos desejos lançados ao vento... Aqueles, tantas vezes ensaiados na esperança da realização. Sem saber os segredos velados, flutua em suas vertigens, desmaia no vácuo do arrepender-se, do limitar-se. Improvisa um sorriso falado entregue ao mundo.
Para ela... nada além dos aplausos suntuosos da platéia ausente. Quando vagarosamente as cortinas se fecham, tudo tem de recomeçar... Fim do espetáculo! Fim do sonho! Até porque...

Toda história tem um fim, mas na vida...
cada fim é um começo.

terça-feira, agosto 05, 2008

Non, rien de rien



Não. Foi a última coisa que ela disse, e nada mais precisaria dizer para me fazer acreditar se um dia iria... Ninguém compreende, tão pouco ela, o porquê da repentina mudança de opinião. O porquê de querer, poder e não ter. Mas é entender de verbo passado, isso era ontem, "não" foi a última coisa que disse.
Se despediu e foi embora, não me disse se voltaria para ficar ou ao menos me fazer visitas, não me disse o que queria e nem para onde ia. Tentei entender o que ela queria, tentei fazer-lhe o gosto, tratei-a bem, confesso, tudo para arrancar-lhe o motivo. Não. Foi a última coisa que disse.
Ainda ontem me lembrei dela. Quando vi os teus olhos no espelho entendi tudo, ela nunca mais voltaria. Senti o gosto azedo da realidade, refluxo de ausência indeterminada, ela, pedaço meu, ausência minha... Para que voltar se nunca foi... Não. Ela me disse, foi a última coisa que ela disse, ainda ontem me lembrei dela... Ainda agora isso é passado... Je me fout du passe...

Não. EU disse.

sexta-feira, agosto 01, 2008

NaDa

Sem diálogos.
Sem rimas.
Sem espanto.
Sem bagunça.
Sem amor.
Sem dor.
Sem alegria.
Sem doces.
Sem agonia.
Mas estou com agonia.
Agoniada.
Não quero rima.
Isso não é NaDa.

...

Não ia dizer, não ia escrever, ia pensar, segurar aqui, bem dentro de mim, mas não quero nada, nada só meu, também não quero nada, que não seja só meu. Sim, não sei, talvez, quem sabe, tanto faz, agora, nunca mais, eu vou, eu já fiz, eu fiquei, eu comi, eu não fui, mas eu quis, você foi, eu não disse, cresci, aumentei, escrevi nada, nada com nada, nada de nada, o que tem o nada? To louca, to doida, sou assim, ia pensar, não ia escrever, mas disse, já foi, ta dito, escrito, terminado, amanhã eu me calo, ou não, eu corro, e não é, não foi, tudo bem, não queria, eu quis, conjuguei, mas NaDa.

quarta-feira, julho 30, 2008

A Morte Joga Xadrez

- Xeque.
- Assim não dá, você me distrai com essas histórias.
- Se você se distrai por tão pouco, que posso fazer eu?
- Sem essa. Toma.
- Você comeu minha rainha?
- Ah é? Não me diga.
- Xeque!
- O quê??? Ta brincando.
- Brincadeira nada, é jogo sério.
- Sério é o que vai acontecer com você quando terminarmos.
- Isso é alguma ameaça?

- Você sabe, nem preciso responder. Se eu pudesse...
- Não sei se você se lembra, mas quem vai é você! Pronto, me passa o cavalo.
- O quê??? Ah, mais essa.
- Concentra aí cumpadi, assim que quer ir pro céu? E pode deixar que as ameaças ficam por minha conta.
- Você não me disse nada sobre isso.
- Sobre o quê? Olha, ameaças no bom sentido...
- Sobre ir para o céu.
- Ok. Ganhou céu, perdeu inferno.
- E se eu quiser ficar na Terra?
- Sem chance.
- Eu pago, compro minha vida. Quanto você quer?
- Seu tempo acabou camarada.
- Não, deve ter outro jeito.
- Xeque!
- Ahhhh, você se aproveita!! Ta me sacaneando. Quer me ver no inferno não é mesmo?
- Se você fosse um pouquinho mais esperto nem se preocuparia com isso.
- O que disse?
- Não importa, continue.
- Ok. Então me diga, como é o inferno?
- Você não vai querer saber.
- Oras, se te pergunto...
- Esqueça, de mim não arranca NADA.
- Ok. O que você quer então? Eu lhe pago.
- Olha, por mais que eu esteja precisando - afinal não paguei a conta do hotel nas duas últimas vezes que estive aqui - não posso aceitar.
- E porquê?
- Questão de honra.
- Ah, qualé. Desde quando Morte precisa de honra.
- Desde que você está vivo. Depois que eu te levar é outra história.
- E como pretende fazer isso?
- Esqueça.
- Mas você nem se qu...
- Percebeu que se preocupa muito com como? Quando é mais importante rapaz.
- Agora quer me ensinar a viver?
- Não pode.
- É claro que não posso, não posso mais é suportar essa idéia de...
- Não infeliz, não pode fazer essa jogada, seu Rei está ameaçado.
- Ah claro, como não estaria. Ok, você venceu. Quando?
- Agora.
- O quê?
- Xeque mate!

sexta-feira, julho 18, 2008

Quero querendo


Quero voar no alto sobre o precipício
Me afogar de amor, de paz, de gente boa
Beber o sossego dos dias quentes de inverno
Inventar histórias reais, me vestir de fantasia
Quero me pintar de noite e dia, sem ter hora e nem onde terminar
Transpirar de alegria, sorrir escandalosamente, gritar, pular...
Mentir pra mentira a verdade (in)conseqüente
Beijar o beijo verdadeiro, quente que arrepia
Quero me emocionar com a novela da esquina
Bater palmas pro artista na rua
Criticar a censura, a desigualdade e a "não crítica"
Tomar banho quente, ouvir a cidade, me deitar na grama
Quero tanta coisa que não me caberia
Inundar-me a vontade de dias assim, anseio
Por parte de tanto, pedaços de cada parte
Grãos pequeninos de feliz ilusão
Quero nada que não me queira
Ou que me queira sem eu querer
Quero o verbo, o verso, o dia
O amigo, o vinho, o calafrio
Quero todo dia, poder querer desse jeito
Jeito manhoso, quietinho e fogoso
Quero sabendo que hoje, ah...
Hoje é só hoje, e eu quero.

quarta-feira, julho 16, 2008

Alguma coisa acontece no meu...

Clarice disse que não, que é bobagem de menina boba, coisa de criança ainda criança, disse que gente grande pensa diferente, gente grande talvez até sinta diferente. Ah, não me importo com o que Clarice diga, é falta do que fazer meter o bedelho onde não é chamada, e eu nem tinha pedido sua opinião. Ela insiste, insiste em dizer o quanto tudo isso é papo furado "Menina, vai caçar o que fazer, ficar de namorico no portão é coisa feia viu? Vai estudar menina". Namorico no portão? É, Clarice não entende nada!
Clarice não é minha mãe, nem minha vizinha, tão pouco uma amiga. Ah, deixe-me falar com Clarice, vou esclarecer-lhe a situação, será que ela me entenderia?
E porque a preocupação se não lhe devo satisfações?
É, não sei não, só sei que as coisas vão bem, vão assim assim, talvez talvez... Vão bem. Bem como estão. Clarice que se esclareça, pra mim as coisas estão bem clareadas, o que quero, quando quero...
Não quero nada.

terça-feira, junho 24, 2008

2 aninhos!!!



Queridos leitores,

Tenho que registrar esse momento, mesmo que passado. Pois, no dia 22 desse mês, dois dias atrás, esse meu espaço fez aniversário! É muito bom poder compartilhar com todos os pensamentos que vagam e escorregam aos dedos... e também observar as outras estórias e histórias contadas nos espaços, até de pessoas que eu não conheço e acabo por conhecer no jeito, nas formas, nas entrelinhas. É através daqui, das letras e dos contos que nos conhecemos, criamos um mundo real, universo de fantasia e imaginação, e assim acabamos por nos conhecer, nós outros e nós mesmo.
Não posso dizer que é poesia, conto, crônica ou redação. É tudo junto, separado, contado, rascunhado, enfim. Hoje vim para contar ao blog e aos visitantes mais um conto de ano, que bom, que bom.

Só passei para dizer a todos os maluculados... Um muito Obrigada!
Porque loucura minha gente, loucura é não se deixar ser louco...
Ótima semana a todos!
Amanda.

quarta-feira, junho 18, 2008

Acontece.


"Se esta rua, se esta rua fosse minha

Eu mandava, eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes

Para o meu, para o meu amor passar..."




E passou, caminhou contente de sorriso aberto, bronco, rouco de gargalhada. Menina cantava, menino dançava, todos riam, brincavam, pulavam a amarelinha de giz azulado. Era uma só alegria, no asfalto, no dia do dia que foi, que não é ou será? Fosse minha...
Outro dia, brincou de ser quem não era, teve medo "suspeito esse sujeito", parecia muito com quem ele era, mas parecia. Mascarado de todos os jeitos, mão com luvas, corpo coberto, rosto pintado, olhar... Bem, o olhar... O olhar era o dele mesmo. Ladrilhar...
Lembrou-se da Ana quando ouviu a caixinha de música, lembrou-se do dia em a esquecera.
Esquecimento. Aquecimento. Apontamento. Ponto.
Passou, não aconteceu.
Acontece.

quarta-feira, junho 04, 2008

Monólogo em Tempo


Infelizes dos que crêem em mim. Acreditam ou tentam acreditar que comigo "tudo passa". Ah se eles soubessem, mas eles sabem, todos sabem, apenas insistem em acreditar. Insistência tola, mas compreensível. Afinal, é preciso crer! Seja no tempo, seja no mito, seja em si mesmo ou em qualquer outro motivo, mesmo que para isso motivo não haja. As pessoas teimam, é de sua natureza teimar. Mas será mesmo preciso? Elas teimam em precisar, necessitam, o tempo todo de um tempo, para tudo, mas para quê? Eu passo viu, e não volto não. Não é teimosia, é que a mim não me basta voltar, assim não teria razão meu existir. Mas eu volto, entenda o modo, porque voltar verbalmente nunca. Tem coisas que eu tempo não curo, se é que tempo cura alguma coisa.
Tem gente que passa a vida procurando algo, alguém, alguém de alguém... Tem gente que espera que esse algo, alguém ou não sei o quê simplesmente apareça... Mas tem um momento que essa gente se pergunta: "por quê?" "pra quê?" ou "pra quem?"... A vida é longa, as pessoas é que não sabem administrar cada uma, cada qual, o seu tempo. Sim, porque eu me fragmento, sou tantas coisas e ao mesmo tempo consigo ser nenhuma. Mas já me basta, parei por uns segundos, minutos, não sei mais eu, preciso correr, até o tempo tem mania de precisar, só aparências. Até mais ver Lembrança, passa em casa pra gente tomar um café mais tarde.

terça-feira, junho 03, 2008

Anonimato

- À quem escreves Eufredo?
- És de tua conta D. Benedita?
- És da conta de todos, queira saber!
- Pois bem, escrevo a alguém.
- Pois quem, hein?
- Alguém és teu nome. Alguém da Cunha Machado.
- Oras, não me venha com peripécias, sei muito bem à quem escreves.
- Então porque perguntas?
- Quero a confirmação.
- Mas se já tens tanta certeza.
- A confirmação.
- Então não há certeza alguma.
- Dê-me-a, ou me tiras do sério.
- Estás séria? Pois parece-me muito abatida. A senhora têm ido ao médico, não quero me intrometer, mas apenas acho que...
- Chega! Cala-te infeliz. Sei que escreves pra quêla bruaca da Rita Maria. Desse jeito comprometerá a todos nós. Dê-me a carta. Já.
- Como? Eu? Oras, e és de tua conta futriqueira. O que pretendes tu?
- Entregar-te ao Estado.
- A ele já pertenço.
- Não se faça de besta. És um tolo.
- Que seja.
- És louco? Nossas vidas estão em risco, e tu, comunica-se com aqueles...
- Loucura é não fazer nada diante de tanta injustiça, e saiba que, com ou sem isso, nossas vidas permanecem em risco, viver já é perigoso o bastante mesmo entre quatro paredes, e não há muros, paredes ou pontes que nos escondam. Somos livres D. Benedita, livres. Do próprio Deus o livre arbítrio dizemos ter. E que liberdade é essa, imposta e limitada, "escolha" deixou de existir há muito, somos obrigados a engolir sem vomitar, a sociedade és certa e errado quem vai contra ela, e todos se esquecem que o peixe também é responsável pelo curso do rio. Bem, "sejamos todos bons cidadãos". Oras, dê-me um motivo para não escrever, e eu o respeitarei se a mim, e a meus ideais, me convier.
- (...)